Armandinho
O dono da guitarrinha que eletrizou o Brasil
por Dirceu Factum
No momento em que foliões de todo mundo estiverem festejando os 60 anos do trio elétrico, na maior festa de rua do mundo, um músico baiano estará completando 46 anos de carreira. Herdeiro do velho Osmar, ele conseguiu não só entender e absorver toda a inventividade do pai – criador do trio elétrico ao lado de Dodô -, como também transcender os conceitos de musicalidade, fazendo da guitarra baiana um instrumento contemporâneo, questionando critérios técnicos da produção fonográfica, da amplificação de instrumentos e da estética artístico-musical da época.
Ele sempre foi um músico à frente do seu tempo. Um tempo em que tocar em cima do trio não tinha o glamour e não era o sonho de consumo de aspirantes à fama e à fortuna. O que movia o instrumentista era a música, a arte, o prazer de, do alto do caminhão, eletrizar a multidão com solos, acordes e batuques de uma música orgânica que, paradoxalmente, transbordava influencias de gêneros e estilos e se mostrava genuinamente baiana. Era o som do trio, a cara do velho e bom Carnaval da Bahia.
Aos 10 anos, enquanto os garotos da sua idade sonhavam com bicicletas, ele já tinha o seu “trio independente”. Uma pequena caminhonete adaptada para conduzir uma bandinha de amigos. E lá ia ele rumo a Avenida Sete, com sua guitarrinha estridente, ao lado de outros trios e já arrastando a multidão.
Aquele garoto louco por música e que já arrancava aplausos dos foliões, com certeza, não poderia imaginar nunca que já estava sendo escrita ali uma história surpreendente, um enredo épico, uma verdadeira saga vivida na “cidade da Bahia”. Uma ópera de rua onde solistas, coro, orquestra e figurantes se revezam e se confundem como protagonistas, mas onde a trilha sonora sempre foi única e plural. Este som alucinante vinha dos auto-falantes instalados num caminhão: o caminhão da alegria, o trio elétrico.
O nome do menino? Armando da Costa Macedo. Mas pode chamar de Armandinho.
Qual a sua memória mais remota da imagem do trio elétrico?
Armandinho – Posso dizer com toda certeza que existem três momentos que ficarão eternizados em minha lembrança... No primeiro deles eu era uma criancinha... tinha cinco anos de idade e me recordo claramente de estar ao lado da minha mãe... Chorando porque eu via meu pai (Osmar Macedo) saindo no trio para tocar no Carnaval e eu não podia ir com ele. Na segunda vez eu também chorei, só que foi de muita emoção. Foi nos anos 60 quando a televisão chegou na Bahia. Aí me chamaram para ver meu pai tocando no Carnaval...Imagine que emoção...Meu pai tocando na televisão?! Aquilo para uma criança era um encantamento... Não teve jeito, chorei de novo. A outra vez foi quando eu tinha nove anos de idade. Meu pai montou um “trio mirim” para mim. Eu saia para Avenida tocando meus irmãos, primos e com os filhos de Dodô... Ia para rua e emparelhava com os trios grandes, viu? (risos). Eu me lembro dos aplausos da galera na rua. Toquei por dois anos nesse trio que meu pai fez pra mim.
Como era visto o músico de trio na década de 70?
Armandinho - A coisa era bem diferente... Um músico de trio elétrico era como um músico de “banda baile”. Os cachês eram baixos, a estrutura era muito simples. Mas eu sempre vi a música feita no trio como algo especial. Para mim o que fazíamos era como se fosse o rock brasileiro. Tanto que quando fomos para o disco, em 75 transformamos a formação instrumental, incluindo a bateria e o baixo elétrico, tirando aquela tradicional lateral percussiva. No carnaval de 76, o trio já veio diferente. Daí, com o sucesso nacional do trio, veio também uma nova postura artística.
A inclusão da música cantada no trio elétrico foi um capitulo a parte, não é mesmo? Como foi essa passagem?
Armandinho – Isto foi muito legal... Não poderia esquecer mesmo. Não tinha microfone para cantor no trio. O que tinha era um microfonezinho lá que meu pai usava para aquela tradicional saudação dele: “Meus amigos...!” Tanto que foi assim que ficou sendo chamado o tal microfone: “Meus amigos”. Um dia Moraes (Moreira) chegou para meu pai e perguntou: “Seu Osmar, eu posso cantar usando “Meus amigos”? (risos). Meu pai que adorava uma novidade já disse “cante meu filho, cante, mesmo”. Ai deu no que deu. Moraes Moreira, o primeiro cantor de trio...
E todo mundo foi atrás dele...
Armandinho – Com certeza, eu lembro que logo em seguida, no trio dos Novos Baianos... os cantores não tinham muito o que fazer porque as músicas eram instrumentais. Quando Paulinho Boca de Cantor, Baby (na época Baby Consuelo) e Pepeu viram Moraes cantando, não deu outra, assumiram o microfone, da mesma forma.
Então você afirma que Baby foi mesmo a primeira voz feminina no trio elétrico?!
Armandinho – Sem nenhuma dúvida! Eu me lembro deles pedindo permissão a Seu Osmar... Meu pai, claro, liberou, mesmo. Meu pai adorava novidades e tratava todos, todos mesmo como filhos, ainda mais sendo músico, cantor... cantora. Ele tinha esse sentimento paternal que era dele, era verdadeiro. Quando ele dizia a alguém “meu filho” ele se sentia mesmo um pai. E era, de verdade. Meu pai sabia reconhecer um bom trio, admirava quem trabalhava certo, com qualidade. Da mesma forma que respeitava os trios que não tinha condições de ter um som melhor. Muitas e muitas vezes ele dizia pra gente: “Meus filhos, vamos tocar com o mesmo volume do trio que vem ai... Eles estão com um som fraquinho... vamos alivia”. Isto, vindo do inventor do trio, me enchia de orgulho.
Você poderia citar três músicas que pontuam fases da trajetória do trio?
Armandinho – Certo. Da primeira fase instrumental eu destaco a música É a Massa. Ela tem uma pegada rocker, com a utilização da guitarra distorcida. Da fase que já contou com a voz, com o canto, eu destaco Jubileu de Prata, que foi para o disco (LP) e festejou os 25 anos do trio. Do que posso chamar de “nacionalização” do trio, eu cito Pombo Correio. Todas de Moraes.
Se eu pedisse uma quarta música, seria Chame Gente...?!
Armandinho – Ah... com certeza. Esta aí é um marco, uma poesia linda... que música bonita que sempre emociona quem canta, quem toca e quem ouve. Chame Gente veio de uma “saudação” instrumental, uma vinheta (Armandinho solfeja a melodia). Cada trio tinha a sua. Anos depois nós resolvemos desenvolver ela e Moraes fez esta letra maravilhosa... Chame Gente é um hino.
O som original da guitarra baiana – instrumento ícone do trio - tem características bem marcantes. Uma certa distorção que tinha tudo a ver com as limitações técnicas de outras décadas. Como você avalia a provável perda de identidade desse som da matriz do trio elétrico?
Armandinho - Não sou contra a evolução tecnológica. De forma alguma. Mas hoje digo que o trio não tem mais características sonoras próprias. Já era. Quem inventou o trio foi meu pai. Conheço o som original. Quando entrei num grande estúdio pela primeira vez, liguei a guitarrinha e o som era outro. Não tinha a distorção necessária. Aquilo que Dodô chamava de “areia”. Resolvi pegar um pedal bem simples para tirar aquela “limpeza” do som e trazer de volta o som típico do trio elétrico. Deu certo. Ai meu pai disse “É isso aí. Este é o som do trio!”.
Você é louco por esta guitarrinha, mesmo, não é Armandinho?
Armandinho – Completamente, cara. Eu vejo a guitarra baiana como um instrumento novo, contemporâneo. Um instrumento que tem tudo a ver com a pop music de todos os tempos. Por isso, guitarristas de todo o Brasil e de todo o mundo ficam loucos por ela.
E como foi que ela “nasceu”?
Foi uma iniciativa minha colocar uma quinta corda no “cavaquinho elétrico”. Primeiro a dupla Dodô & Osmar resolveu o problema da microfonia (tecnicamente, microfonia é a realimentação de áudio que ocorre quando um microfone capta o som do dispositivo que emite o som do próprio microfone. Em geral, esta realimentação provoca um ruído agudo e estridente) tirando a caixa acústica e usando a madeira (cepo) maciça.
Veja só: quando a guitarra elétrica chegou, nós já tínhamos em casa nossas guitarras e amplificadores. Não Fo novidade. Ouvi várias pessoas dizendo assim: “Vamos ver lá o cara que toca como Jimmy Hendrix” (músico londrino citado por críticos e outros músicos como o maior guitarrista da história do rock e um dos mais importantes e influentes músicos de sua era, em diferentes diversos gêneros musicais).
... Inclusive a música original do trio tem também esse efeito de catarse e transe, essência do também velho e bom rock’n’rool, não é mesmo?
Armandinho - Sempre teve... Desde o inicio foi assim. O que todos queriam era mesmo esta celebração, esta festa em altas voltagens... Meu pai sabia disso. Queria fazer um som libertário, um som para a galera. Mas tudo era feito de forma orgânica, natural, sem estratégias. Todas as pessoas envolvidas na história do trio eram e são apaixonadas por este som, por esta música. É a coisa do espírito jovem que nos move, sempre.