
“Eu quero fazer mais pela música baiana”
por Dirceu Factum
“Já pintou o Verão, calor no coração a festa vai começar...”. Lembra dessa música? E esta aí? “Quando você chegar... numa nova estação...”. Ah! Tem aquela... “E eu vou lá, vou lá, vou lá, vou lá, vou lá...”. Mais uma. Esta é das antigas, mesmo. “Ai nêga, ô, ô... tens o brilho do amor...”. Massa, né? Só sucesso e todas lembram (a quem curte Carnaval e axé music, claro) uma cena, um momento... ou até mesmo uma paixão.
Pois é, todos estes hits foram gravados, originalmente por um cara que muitos da nova geração não conhecem. Talvez já tenham ouvido falar ou já ouviram a voz, sem ligar o nome à pessoa. Ele não esta preocupado com isso. Sabe como são as coisas da moderna mídia e conhece de perto todas as curvas sinuosas do showbizz.
Foi linha de frente de uma das bandas de maior sucesso da história da axé music. Deu um tempo fora (EUA) e voltou à cena baiana no último Verão, a convite da turma do Jammil, no Bonfim Ligth. No Carnaval deu canjas espertíssimas sentindo e fazendo sentir na galera aquela tal energia que só quem arrebata um coral de milhares de vozes, do alto de um trio elétrico sabe, exatamente, qual é. Este cara é Joka. Joka Barreto.
Pude perceber que este tempo fora do Brasil e da mídia local fizeram bem a ele. Está motivado a “recomeçar”. E o melhor: não quer pegar nenhum atalho e nem pongar em fórmulas já usadas. Está em busca do novo. E antes mesmo de anunciar o que vem por ai levamos um papo e antecipamos, aqui, algumas idéias de Joka. Confira.
Dirceu Factum – Joka, de cara quero saber como foi seu Carnaval. Muitas emoções?
Joka Barreto - Rapaz... foi muito massa! Muita, mas muita emoção mesmo. Cantei sábado no Ara Ketu, a convite de Dona Vera e de toda turma. Tive o prazer e a honra de cantar ao lado de Larissa Luz. Que menina maravilhosa... canta super bem, alto astral... Fizemos o Circuito Osmar, Campo Grande. Já no domingo, domingo fizemos uma participação na programação do Band Folia cantando no Studio Glass, da Barra. Eu e quase todos que passaram pela Banda Mel (Book, Janete e Robson Moraes). Cantamos com os meninos do Jammil (eles no trio) e depois seguimos até Ondina. Foi uma felicidade. Momentos que eu nunca vou esquecer.
DF – O Jammil que no Bonfim Ligth teve a feliz idéia de reunir vocês todos, saindo na frente nas homenagens aos 25 anos da axé music...
JB – Exatamente. No Bonfim Ligth estávamos todos (os já citados e mais as cantoras Alobened e Márcia Short) e desde lá foi muito bacana. Para mim, então, que estava mais distante do público baiano... foi um super presente do Jammil.
DF- E entre estes momentos todos, qual deles foi o ponto máximo de sua emoção?
JB – Cara... a terça-feira no Ara Ketu foi muito especial. A gente estava e Larissa me chamou para cantarmos um pout-pourri da Banda Mel com as músicas Protesto Olodum, Faraó, Baianidade Nagô, Prefixo de Verão e Baianidade Nagô. Fico arrepiado só em lembrar... aquela multidão na Avenida Oceânica cantando junto num coro lindo... Foi muito bacana, inesquecível.
DF – Em algum momento, antes do cantar neste Carnaval, você teve receio em não ter uma boa resposta do público? Tipo... “quem é esse cara?”
JB – Não posso dizer que bateu um pouco disso, mesmo. Mas a vontade de reencontrar o público baiano, o Carnaval da minha terra, os amigos... tudo daqui era muito maior que este receio. Estava muito mais ansioso que receoso. A vontade de cantar foi mais forte. Graças a Deus, deu tudo muito certo.
DF – Vamos voltar no túnel do tempo e desembarcar nos anos 90. Você na Banda Mel...
JB – Ah... a Banda Mel foi tudo pra mim. Minha casa, meus amigos e a chance de rodar o mundo colhendo só coisas boas. Na minha vida tudo foi muito rápido e instantâneo: TOP 69, banda Pinote, 90 a 92 e dois anos depois, a Mel. Só pelas gravadoras Warner Music e Sony Music foram seis discos de ouro e um de platina que abriram portas para a carreira internacional. Foram diversos festivais musicais, tendo destaque o Festival de Montreux na Suíça considerado um dos mais renomados festivais de música do mundo. Ganhamos discos de ouro no Japão por liderança em vendas e execução nas rádios FMs do Oriente. Tudo isso me deu muita bagagem, com certeza.

DF- Depois disso por onde você andou?
JB – Passei dois anos nos Estados Unidos, em Malboro [Massachusetts] integrando uma banda, a MUSA. Nossa proposta era música baiana. Nunca parei de cantar. Lá fomos uma espécie de anfitriões de bandas baianas como o Ara Ketu (na época com o Tatau) e atrações de outras regiões do Brasil, como Leonardo.
DF – E agora, Joka, o que vem por ai?
JB - Estou no processo de encontro e construção de um novo projeto. Na verdade já tenho muito encaminhado. Posso adiantar que quero ir além da música, do show convencional e que vou ter como sede o subúrbio.
DF - Perto do povão...
JB – Isso ai: perto do povo. Adoro cantar para o povo. Porque você vê a verdade no olhar, na resposta. Em todos estes anos passei por alguns projetos. Todos foram positivos. Hoje tenho condições de reunir tudo num projeto meu, com minha identidade em tudo. Do conceito a realização.
DF – E quanto à sonoridade da banda?
JB – Muita percussão. Isto é certo. Vou passear por estilos que adoro como o reggae e o samba-reggae, estilo que marcou também o trabalho da Banda Mel e pelo qual sou apaixonado.
DF – Você sabe de todas as dificuldades desse recomeço...
JB – Sei e estou disposto porque o que me interessa é a verdade. Não estou buscando o sucesso imediato. Primeiro eu quero o trabalho, a música e o comprometimento das pessoas envolvidas. O resto será consequencia.
DF – Voltando ao Carnaval da Bahia. Qual foi seu olhar diante a uma festa da qual você se distanciou por algum tempo?
JB – Posso até estar errado, mas percebi um Carnaval menos violento. Não posso dizer isso com total firmeza porque não estive em todos os lugares, claro. Mas por onde andei vi um Carnaval mais tranqüilo.
DF – E musicalmente?
JB - Achei que esta mais diversificado e ao mesmo tempo retornando a conceitos da música produzida em outras décadas. Talvez pelo aniversário de 25 da axé music... Mas vi muita coisa feita agora com a pegada da musica dos anos 80 e 90.
DF - E o reencontro com os colegas, os outros artistas. Você foi bem recebido?
JB – Muito bem recebido. Não só pelos artistas que me convidaram para canjas, como Larissa que é uma cantora muito boa, uma excelente intérprete; e os caras do Jammil (Tucá, Manno e Beto), como também todos que reencontrei. Uma emoção ver cantores tão bons como Saulo (Eva) e os já consagrados Durval (Asa de Águia) e Bell (Chiclete com Banana) mandando ver.
DF – De boa voz você entende, afinal conviveu durante todos os anos da Banda Mel com a cantora Alobened...
JB – Meu Deus...! Aló é uma super cantora. Uma pessoa incrível que eu aprendi muito. Tivemos uma convivência muito boa e foi demais reencontrá-la cantando ainda mais... Adoro essa mulher e me emociono ao lembrar de tudo que vivemos e da presença dela... Sou muito agradecido a ela pela amizade e parceria. Crescemos juntos na música.
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