ENTREVISTAS 01/09/2009

Jussilene Santana - Atriz e jornalista

Dona de um talento admirável, a ganhadora do prêmio Braskem 2004 como melhor atriz por Budro, Jussilene Santana, vem se destacando como uma das melhores atrizes do cenário cultural de Salvador. Como atriz já encenou Senhorita Júlia, de August Strindberg, com direção de Ewald Hackler, um dos principais trabalhos desenvolvidos na sua carreira de sucesso. Na televisão trabalhou ao lado de Fernando Guerreiro em “A mulher de roxo”.

No currículo de jornalista, estão os prêmios Banco do Brasil (2003), ABI (2004) e Troféu Coelba de Reportagem (2003), além de ter passado pelos principais jornais baianos, Correio da Bahia e A Tarde. Em 2010 estará no cinema em três grandes produções, uma delas um dos clássicos de Jorge Amado “Capitães da Areia”.

Recentemente essa carismática atriz, jornalista, escritora e doutoranda em artes cênicas pela UFBA/PPGAC, lançou o livro ”Impressões Modernas – Teatro e Jornalismo na Bahia”, fruto das suas pesquisas nos jornais A Tarde e Diário de Notícias durante o mestrado, onde analisa a repercussão da cena teatral da Bahia na imprensa entre os anos de 1956 e 1961 e a importância do primeiro diretor da Escola de Teatro da Ufba, Martim Gonçalves.

Atualmente a escritora, criada na periferia de Salvador, em São Caetano, mora no Rio de Janeiro com o seu marido e a sua filhinha, Ana Luisa de apenas quatro meses, e se prepara para retornar aos palcos baianos com a sua peça “Joana d'arc”.

Confira agora o bate-papo com, essa grande atriz, Jussilene Santana.
 

Axezeiro.com: Por que escolheu a profissão de jornalista e atriz?

Jussilene Santana: Essa é uma daquelas perguntas aparentemente simples, mas que nos faz parar e pensar... Realmente. A profissão. Como é que a gente termina optando por algo que vai determinar tanta coisa? Desde como as pessoas vão nos enxergar à maneira como sustentamos nossas famílias? De como vivemos nosso cotidiano até à forma como nós mesmos nos enxergamos? E isso tudo é definido, na maioria das vezes, numa idade onde tudo é tão confuso e que, curiosamente, a gente não gosta de ouvir muito conselho... Bom, sempre fui uma pessoa comunicativa. É uma característica que se manifestou desde muito cedo na minha personalidade. E minha família sempre incentivou ou, ao menos, não tolheu isto em mim. Acho que a partir disso eu meio que via como natural seguir atividades que trabalhassem esta minha característica. O que, claro, me traria grande prazer pessoal. Mas como nasci numa família humilde e de poucos recursos financeiros, eu não poderia me dar ao luxo de escolher apenas o que quisesse e ponto. Teria, em primeiro lugar, que escolher algo que me sustentasse, que ajudasse em casa e que necessitasse de pouco investimento, sabe? Bom, também o mercado de teatro/cinema/TV na Bahia nesta época já não era (e nem é) estável... E o de jornalismo idem. Daí que durante minha adolescência exerci muitas tarefas remuneradas para custear tudo que eu queria fazer, os cursos, os programas... Vendi empadas (feitas por mim, uma delícia!), dei aulas particulares e terminei fazendo o segundo grau num curso técnico, de edificações, na Escola Técnica Federal, porque assim imaginava que teria mais estabilidade, um ofício a recorrer. Foi no vestibular, literalmente na fila de inscrição, que decidi pelo jornalismo, ao invés do curso de engenharia... Em paralelo à Faculdade de Comunicação, fiz o curso profissionalizante de teatro, às noites. Em casa, meu pai ficou bastante surpreso com a mudança, mas aí eu já estava mais preparada, mais segura para o que me esperava. E o que me esperava? Muuuitas noites em claro, trabalho triplicado (nas três atividades) e a percepção de que eu mesma teria que construir a minha vaga no "mercado de trabalho", porque ela não estaria lá vazia, esperando por mim.

Axezeiro.com: Você concorda com a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a não obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão de jornalista?

Jussilene Santana: Sei que ainda é um assunto polêmico, mas nunca achei que a obrigatoriedade do diploma traria por si só a qualidade que o jornalismo tanto precisa. Nunca pensei assim, nem quando era aluna e nem como professora de jornalismo. Conheci muitos cursos que não estavam devidamente capacitados para formar bons profissionais na área, seja porque eram muitos técnicos ou eram muito teóricos ou porque simplesmente pegavam um aluno tão verde que não "dariam conta dele" em quatro anos. Contudo, acredito que formação é essencial.

Axezeiro.com: Você acha que os cursos de jornalismo nas faculdades brasileiras irão terminar em decorrência dessa mudança?

Jussilene Santana: Claro que não vão terminar. Porque o diploma ainda servirá como base para que as empresas jornalísticas (as poucas que existem) decidam sobre contratações. Mas o que espero que ocorra é que as faculdades e cursos mais frágeis se desarticulem de vez, parando de criar falsas expectativas em quem legitimamente pretende trabalhar na área.

Axezeiro.com: Como você vê o jornalismo baiano atualmente? E o que você mudaria nele?

Jussilene Santana: O jornalismo baiano só é realmente diferente do que é exercido no resto do Brasil em termos salariais. De resto padece dos mesmos males e, menos, das mesmas benesses. O jornalismo impresso passa por uma crise severa, com pouco investimento, pouco espaço para reportagem, para a crítica, para o raciocínio... Causa e conseqüência o jornalista que trabalha nas redações se vê obrigado a trabalhar mais em menos tempo e a qualidade do seu material e dos leitores tende a cair muito. O que eu mudaria? Olha só, a única coisa em que acredito mesmo, quase que como creio numa religião, é na formação pessoal. Não na informação, mas na formação! Um sujeito pode ficar conectado o dia inteiro na TV, na internet, pulando de site de fofoca, para joguinho e MSN e, depois disto, sair mais vazio e exaurido do que entrou... Daí que precisamos, enquanto sociedade, focar mais na formação e na substância do que falamos e ouvimos. O equilíbrio futuro de nossa organização social depende disso.

Axezeiro.com: Qual a sua opinião sobre os programas televisivos que encontramos nas emissoras da capital baiana como “Se Liga Bocão” e “Que Venha o Povo”?

Jussilene Santana: Em primeiro lugar, tais programas não são, de forma alguma, uma novidade. O jornalismo "mundo-cão" sempre existiu, mesmo antes da invenção da TV... Também se engana quem acredita que este gênero de informação só interessa às classes populares ou às pessoas com baixo poder aquisitivo. Basta dar uma olhada nas zonas de Ibope ou mesmo nos programas populares similares existentes em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo para derrubar este mito. Agora, o que acho de preocupar, realmente, é que estes formatos sejam OS ÚNICOS a que boa parte da população tenha acesso para formar sua impressão sobre o mundo em que vive. Eu sei, eu VEJO que para muita gente esta é a maneira soberana de "se conhecer a realidade" ao seu redor. Sem deixar espaço para a poesia, para a leveza, que também fazem parte da existência, afinal! Só tendo a experiência do "mundo-cão", muita gente termina vivendo num mundo "distorcido", amedrontado e sem esperança, não é mesmo?

Axezeiro.com: No seu recente livro, "Impressões Modernas - Teatro e Jornalismo na Bahia", você analisa a configuração do teatro como temática na imprensa baiana em meados do século XX. Como você enxergar a cobertura que a imprensa baiana realiza em relação ao nosso teatro?

Jussilene Santana: A atual cobertura sobre o teatro baiano dedica pouco espaço para a reportagem e para a crítica. Também, como no restante do jornalismo, paga o preço de trabalhar com equipes enxutas, nas quais um jornalista se desdobra em mil funções. Preso na redação e com poucas oportunidades de continuar se capacitando na profissão, o repórter submete-se em demasia às informações trazidas nos press-releases, sem compará-las, sem questioná-las devidamente. Nesta conjuntura, as assessorias de comunicação com maior poder de fogo (e financeiro, leia-se) saem com vantagem. 

Axezeiro.com: Em Salvador as pessoas já nascem com a cultura de escutar axé music e de só prestigiarem espetáculos desse estilo. Você considera que a música baiana tira o interesse do público pelo teatro?

Jussilene Santana: Olha que engraçado... Dizem que a axé music e o pagode são alvos de preconceito... Mas acho que o teatro também sofre de um preconceito brutal em nossa sociedade. Muita gente nem se "arrisca", e a palavra é esta, arrisca a assistir uma peça de teatro porque acha que ela vai ser chata, que vai ser cansativa, que se vai ser "agarrado para subir no palco" ou algo semelhante... Na maioria das vezes é a namorada ou aquele amigo antenado que arrasta a pessoa para um "programa diferente".  Causa e conseqüência os atores baianos são pouco conhecidos e a maioria das pessoas só se sente "segura" para fruir esta experiência estética quando estes mesmos atores baianos passam pela legitimidade da televisão no sudeste do país e VOLTAM para apresentar suas peças na cidade.
 
Axezeiro.com: Recentemente o governador da Bahia, Jacques Wagner, chamou um grupo de artistas, que contestavam a atual política cultural do Estado, de viúvas do carlismo. Realmente existiu o apoio e a colaboração de Antonio Carlos Magalhães – ACM, para o desenvolvimento dos nossos espetáculos teatrais?
 
Jussilene Santana: O chamado 'carlismo' apoiou as artes na Bahia, não só o teatro, na década de 1990, que tivessem um pré-requisito: tratassem ou legitimassem um determinado "modo de ser baiano". Que, enfim, falassem da "baianidade". E este apoio foi estabelecido sobretudo a partir da lei de incentivo fiscal, o Fazcultura, um mecanismo muito criticado no atual governo.
 
Axezeiro.com: Qual peça teatral marcou a sua carreira de atriz?

Jussilene Santana: Senhorita Júlia, de August Strindberg, com direção de Ewald Hackler. Participei de duas montagens desta peça, em tempos diferentes, com o mesmo diretor. E revisitei o texto em algumas leituras também. Uma delas está no YOUTUBE.

Axezeiro.com: Quando você retornará para os palcos baianos e quais são os seus planos para atuar em cinema?

Jussilene Santana: Em dezembro irei estrear o espetáculo Joana d'arc, com direção de Elisa Mendes, na Sala do Coro do TCA. Quanto aos filmes, participei de três que devem estrear em 2010: Capitães da areia, Jardim das Folhas Sagradas e Estranhos.

Axezeiro.com: Deixe uma mensagem para os futuros jornalistas e atores baianos.

Jussilene Santana: É difícil deixar uma mensagem final porque não existem mensagens finais. Devemos estar em constante diálogo. E podemos continuar perfeitamente esta conversa através dos meus dois blogs. O Arena Teatral (http://arenateatral.blogspot.com) é onde concentro informações e críticas sobre o meu livro  e o Teatro NU é o blog do grupo que tenho com o dramaturgo e diretor Gil Vicente Tavares (http://teatronu.blogspot.com). Espero todos os interessados lá.
 

Por Fabiana Oliva

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